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Natal

                                                                                        
A palavra portuguesa NATAL foi NATALIS no latim, derivando do verbo NASCOR (nāsceris, nāsci, nātus sum) que tem sentido de nascer e de onde evoluiram também  NATALE  do italiano, NOEL do francês, NADAL do catalão, NATAL do castelhano, sendo progressivamente substituída por NAVIDAD como nome do dia religioso. Como adjetivo, o Natal também significa o local onde ocorreu o nascimento de alguém ou de alguma coisa.  Como festa religiosa, celebra o nascimento de Jesus e assim é o seu significado nas linguas neo-latinas.



 
Já a palavra CHRISTMAS do inglês, evoluiu de CHRISTES MAESS (CHRIST’S MASS) que quer dizer missa de Cristo.  Mas a verdade é que o Natal é o centro dos feriados de fim de ano sendo no Cristianismo, o marco inicial do Ciclo do Natal que dura doze dias.  

Universal, abrangente, calorosa - assim é a festa de Natal, que envolve a todos nós.  Na verdade, é uma das mais coloridas celebrações da humanidade, pois é a maior festa da civilização surgida com o cristianismo no Ocidente.  Aliás, é a época em que toda a fantasia é permitida.  Não há quem consiga ignorar a data por mais que conteste as importações norte-americana e chinesa nos simbolismos:   neve, castanhas, trenós, renas, Papai Noel vestido com roupa de lã e botas, etc.

Até os antinatalinos acabam em concessões, um presentinho aqui, outro acolá.    Uma estrelinha de Belém na porta de casa, uma luzinha, um mimo para marcar a celebração da vida, que é o autêntico sentido desta festa.  Independente do consumismo tão marcante, o Natal mantém símbolos sagrados do dom, do mistério e da gratitude.

Mas nem sempre foi assim, senão vejamos.


Cerca de 2000 anos passados, celebrava-se o Natal com um antigo festival mesopotâmico denominado Zagmuk,  que simbolizava a passagem de um ano para outro.  Para os mesopotâmios, a época representava uma grande crise devido a chegada do inverno, por eles acreditarem que os monstros do caos enfureciam-se e por isso Marduk, seu principal deus  teria que derrotá-los para preservar a continuidade da vida na Terra.  Para ajudar Marduk em sua batalha, realizavam o festival de Ano Novo, que durava 12 dias.  A tradição dizia que o rei devia morrer no fim do ano para  juntamente ao lado de Marduk, ajudá-lo em sua luta.  Para poupar o rei, um criminoso era escolhido e vestido com as suas roupas, tratado com todos os privilégios do monarca, após o que era morto levando consigo todos os pecados do povo.  E desta forma a ordem era restabelecida.

A Mesopotâmia, chamada de mãe da civilização, inspirou a cultura de muitos povos, dentre eles, os gregos, que englobaram as raízes do festival, celebrando a luta de Zeus contra o titã Cronos.

Mais tarde, através da Grécia, o costume alcançou Roma.  Saturno era a idade de ouro de Roma e por isso associado ao Sol.  E em sua homenagem os romanos, celebravam o festival Saturnalia, representando o triunfo de Saturno sobre Júpiter.  A festa começava  no dia 17 de dezembro e ia até 1º de Janeiro,  comemorando-se o solstício do inverno,  período de alegria e troca de presentes. Nesta altura ninguém trabalhava. Acendiam-se velas e grandes fogueiras para iluminar a noite, tudo com muita comida e bebida.
Outro ritual era a oferta de presentes para apaziguar a deusa das colheitas, sim, pois os romanos tinham deuses para quase tudo.

No último século antes de Cristo introduziu-se em Roma, a adoração a Mitra, divindade persa, que se aliou ao sol para obter calor e luz em benefício das plantas, tornando-se uma das religiões mais populares do Império. E, por ser um dos maiores festejos da Era Romana, o Imperador Aureliano declarou o 25 de dezembro como o maior feriado em Roma, passando a ser celebrado como o dia do nascimento do misterioso deus, Mitra, também chamado de “ dia do nascimento do deus Sol Invencível, dia do nascimento do Sol Invicto,  (Natalis Invictus Solis)”.  De acordo com seus cálculos, aquela era a data em que o sol se encontrava mais fraco,  porém, pronto para recomeçar a crescer e dar vida às coisas da Terra, mas de outro modo anunciava a volta do Sol em pleno inverno do Hemisfério Norte, o chamado solsticio de inverno. Neste dia, as escolas eram fechadas e ninguém trabalhava, festas eram realizadas nas ruas, grandes jantares eram oferecidos aos amigos e, árvores verdes - ornamentadas com galhos de loureiros e iluminadas por muitas velas - enfeitavam as salas para espantar os maus espíritos da escuridão.  E, os mesmos objetos eram usados para presentear uns aos outros.  

Entretanto, a origem das comemorações festivas do ciclo natalino como tal, vêm da distante Idade Média, quando a Igreja Católica introduziu o Natal em substituição a  festa mais antiga do Império Romano, a festa do deus Mitra. Todavia de acordo com o almanaque romano, esta festa de Natal já era celebrada em Roma no ano 336 D.C. sendo que  na parte Oriental do Império Romano, comemorava-se em 7 de janeiro o  nascimento de Cristo, ocasião do seu batismo, em virtude da não-aceitação do Calendário Gregoriano.   Mas a data conhecida pelos primeiros cristãos para o nascimento de Jesus Cristo foi fixada pelo Papa Júlio I, no ano 350, depois de uma investigação pormenorizada, como forma de atrair o interesse da população.  Pouco a pouco o sentido cristão modelou e reinterpretou o Natal na forma e intenção.  Assim é que somente no século IV as igrejas ocidentais passaram a adotar os dias, 25 de dezembro para celebrar o Natal e 6 de janeiro para a Epifania (que significa "manifestação"), dia em que se comemora a visita dos Magos. 

          

Ao analisarmos a escolha do dia 25 de Dezembro temos que a mesma foi inteligente e nada teve de arbitrário.  Ao colocar, de uma vez por todas o nascimento de Cristo a meio das antiqüíssimas festividades pagãs do solstício de 200do Inverno, a Igreja Cristã tinha a esperança de absorvê-las e de convertê-las.  O que aconteceu foi que, por um lado, as festividades pagãs foram vitoriosamente envolvidas pela fé cristã e, o nascimento de Jesus transformou-se no espírito das pessoas, no principal ponto de  interesse do solstício do Inverno.  Assim, em vez de proibir as festividades pagãs, forneceu-lhes um novo significado e uma linguagem cristã.   As alusões dos padres da igreja ao simbolismo de Cristo como "o sol de justiça" (Malaquias 4:2) e a "luz do mundo" (João 8:12) revelam a fé da Igreja n'Aquele que é Deus feito homem para nossa salvação.

Todavia as evidências confirmam que,  num esforço de converter pagãos, os líderes religiosos adotaram a festa celebrada pelos romanos, o "nascimento do deus sol invencível" (Natalis Invictus Solis) e tentaram fazê-la parecer cristã.  Para certas correntes místicas como o Gnosticismo, a data é perfeitamente adequada para simbolizar o Natal, por considerarem que o sol é a morada do Cristo Cósmico.  Segundo esse princípio em tese, o Natal do hemisfério sul deveria ser celebrado em junho.          
 
Palestra proferida pela autora na comemoração do Natal do ano de 2011, na Academia Paraense de Letras, da qual a mesma é titular da Cadeira 17.



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